segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Com ou sem partitura?

Recital de Ivo Pogorelich
Se um pianista entra no palco carregando sua partitura, muitos músicos já imaginam: “Coitado... esse vai fazer besteira... não sabe direito a música”, enquanto se um solista faz um concerto sem partitura, parte do público fica maravilhado: “Como ele consegue saber todas as notas, ele é um gênio?”.  Sem dúvida uma dessas duas opções já passaram pela sua cabeça, mas afinal, será que existe alguma regra para isso? 

O fato é que normalmente, por segurança, a música de câmara e orquestral é executada com partitura e os concertos e recitais “solo” (principalmente de piano) sem partitura. Isso acontece, pois tanto na música de câmara quanto na orquestral diversos músicos estão envolvidos e muitas vezes durante a obra existe pausas individuais tão longas que seria necessário ser praticamente um matemático para ter a seqüencia exata de pausas na cabeça para acertar a entrada.

Gostaria de deixar claro a todos que tocar com partitura não é nenhum sinal de fraqueza ou de Alzheimer. O único problema é que a sociedade acabou criando certo preconceito e devido a isso muitas vezes quando colocamos uma partitura na nossa frente o nosso cérebro inconscientemente faz com que nós tenhamos uma postura de “aluno” e de “inseguro”. Essa síndrome de inferioridade obviamente cria uma barreira psicológica entre nosso cérebro e a música acabando assim com nossa concentração e fazendo com que nós não consigamos transmitir a verdadeira retórica da música ao público.
 
Tocar sem partitura também não é nenhum sinal de genialidade ou de superioridade.  É importante lembrar que é cada vez mais raro encontrar um solista que toque sem partitura e saiba exatamente cada nota que deve tocar. Na realidade, quando nós, músicos, tocamos, existem vários tipos de memória que se complementam e facilitam a memorização da obra:

Antes mesmo de começar a estudar uma obra nova, já possuímos a memória auditiva dela (se já escutamos alguma gravação da obra). Quando começamos a estudá-la adquirimos a memória sensitiva, visual, e mecânica (De tanto estudar as vezes não precisamos nem pensar nas notas, os dedos parecem já ir sozinhos) e finalmente se paráramos para analisar a partitura conseguimos a memória intelectual. (Essa última é a mais trabalhosa e é a responsável por diferenciar um verdadeiro músico e um músico medíocre).

Infelizmente o que acontece é que muitos músicos já se contentam com a simples memória mecânica e ignoram a memória intelectual. O pior é que são poucas as pessoas que conseguem distinguir esses dois tipos de músicos.

Deixando o psicológico de lado, o importante é deixar claro que tocar com ou sem partitura não interfere nem determina absolutamente nada. (Ivo Pogorelich, por exemplo, apesar de sabere a música de memória prefere usar a partitura para conseguir ter uma maior liberdade de expressão e nem por isso ele perde a transcendência quando toca).

O nosso cérebro é mais complexo que imaginamos e uma simples explicação pode ajudar a desmitificar essa nossa cultura e admiração aos “sem partitura”.

Abraço a todos,

John Blanch
(Twitter / Formspring / Site / Email)

14 comentários:

  1. Concordo plenamente John, vou tocar um concerto um tanto fácil de Oskar Rieding pra violino, o Opus 34 e resolvi memorizar tudo e tocar com partitura porque acredito ser mais seguro. Abraço.

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  2. Ótimo texto, John! Tá aí um mito que precisa muito ser quebrado!

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  3. Eu acredito na memorização da música a partir do que ela apresenta como estrutura, de como ela soa. Sou, como você disse, a tal memória intelectual. E não acredito na interpretação de uma música se a pessoa só decorou as notas ou se as lê numa partitura.
    Achei interessantíssimo sua colocação sobre a "síndrome de inferioridade" que a partitura pode causar. Muito boa explicação! Sempre senti coisas parecidas mas nunca soube colocar em palavras tão bem como você fez!

    Abraços

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  4. Concordo com o que vc diz Qto ao preconeceito em se tocar com partitura( e tb sem partirua tb existe esse tal de pre-conceito). O que eu levo prá minha vida qdo eu tenho que executar uma peça é simplesmente o seguinte: o importante é a execução e interpretação independente das ferramentas que eu irei usar no palco. MAs muita gente não pensa dessa forma, pensam em relação ao que ao que os outros vão achar.

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  5. Ótima matéria! Lembrando que o inventor disso, ou seja, tocar de memória, foi o compositor e virtuose Liszt. E a palavra "de cor", significa literalmente "do coração" vem do latim, "cordis", assim tocar de memória é uma prática dos ideais do romantismo.

    Obrigado pela matéria!

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  6. John acho que usar ou não partitura depende muito de cada um.Eu por exemplo prefiro memorizar.

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  7. Nossa, obrigada MESMO por esse post. Eu sempre me senti, de certa maneira, inferior por usar partitura em audições e recitais. Eu adquiri esse hábito por causa de uma vez na qual, sem partitura, 'me deu branco' de dois movimentos inteiros! Fiquei com trauma e agora só toco com partitura. É bom saber que alguém tão inteligente e, imagino, bom pianista, escreva algo do tipo aqui no blog.

    Abraço. :)

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  8. Richter tocava maravilhosamente com partitura. O problema dos músicos eruditos é o amor as convenções que remontam da epoca da igreja e da corte. O que importa é tocar bem. Se tem fumaça de gelo seco, circo de soleil, junto a execução, não importa. se faz bem com partitura, problema de ninguem!
    O que vale é o que o mucisista traz de expressão na execução. Aliás, quando vão escrever um mesmo artigo falando da roupa de garçon que o músico usa como uniforme da categoria? nem médico usa muito mais o branco...

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  9. Na verdade, os únicos que se preocupam com essa questão de tocar com ou sem partitura, são os próprios pianistas. Não devemos esquecer que a principal característica da música é a continuidade, e se o pianista parar de tocar para virar uma página, esta continuidade será interrompida. Acredito que algumas músicas são mais adequadas para um recital com partitura - por exemplo, as miniaturas - neste caso as páginas podem ser colocadas lado a lado. O "virador de páginas" às vezes não sincroniza com o pianista.

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  10. Liszt foi um pianista inovador. Criou um estilo,onde o pianista toca sem partitura. Depois dele, os pianistas passaram a tocar de memória. Porém, com o passar do tempo alguns pianistas passaram a buscar alternativas. É o caso do Richter. Atualmente, pianistas altamente qualificados como Marc-André Hamelin e Boris Berezovsky já foram vistos tocando em público com partitura. Não podemos negar um fato: os recitais onde o pianista toca tudo de memória são emocionantes. Porém, tocar com partitura jamais tira da música seu principal atrativo: a beleza.

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  11. Gostei do post, mas descordo em um aspecto, a memória intelectual interfere no momento "sentimental". A música em si deve ser interpretada de forma que você sinta tudo o que está sendo transmitido, porém, se você estiver focado na lembrança da partitura, você não poderá tocar de forma "completa". Um exemplo é Alice Sara Ott, que toca música de níveis altíssimos e nem por isso perde a sensibilidade e genialidade

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  12. achei muito boa a colocação, eu toco piano em restaurantes e nao uso partituras, so faço mesmo uso delas quando nao conheço bem a musica então faço-a como ferramente de treino.;uso mais a memoria "sentimental" e nunca toco musica que nao conheço, pois primeiro eu aprendo a musica para depois toca-la.para aprende-la sempre que possivel faço uso da partitura>

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  13. eu toco flauta e uso a partitura, pois sem ela me dá um branco violento. obrigado

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