terça-feira, 6 de abril de 2010

Encontro com Evgueni Kissin

Revista francesa "Clássica"
Nesse mês, a revista francesa "Classica" nos presenteou uma edição com diversas matérias inteiramente destinadas aos grandes pianistas eruditos atuais. Nos próximos dias vou traduzir e disponibilizar para os leitores do blog as interessantes entrevistas com três grandes nomes do piano erudito.


Texto e Entrevista por Bertrand Dermoncourt:

Ele é celébre por seus grandes concertos e também por ser bastante reservado, mas em momentos raros como os desta entrevista, onde ele é confiante, ele se entrega completamente. Suas confidências são comoventes.

Estrela secreta do piano, Evgueni Kissin é conhecido por jamais dar entrevistas. Fora do palco, ele não tem nada a dizer. Essa entrevista se passa no bar do Hotel Napoleão, no 8eme arrondisment de Paris. Sentado no sofá, ele espera, rígido como uma estaca, visivelmente tenso por um "teste" que ele teme.

Sem dúvida, por ser extremamente tímido, Kissin não falará diretamente de sua arte. Depois de um começo de entrevista no mínimo "difícil" e em um inglês em sílabas ultra-articuladas, ele vai terminar nos abrindo mais que sua memória, porém seu coração, por nos falar de seus artistas prediletos.

Você acaba de gravar a integral dos concertos de Beethoven. Porque agora?
E porque não? Qual é o senso de sua pergunta? Você quer dizer que é cedo demais? Ou tarde demais? Uma gravação como essa demora para planejar.

E porque a Sinfônica de Londres e Colin Davis?
São grandes artistas de calibre internacional. É uma grande experiência.

Quer dizer que...
Eles tocam bem.

e também que...
Nós nos entendemos bem.

(...)
Sim, era necessário fazer, era o momento ideal.

Beethoven é um clássico ou um romântico?
Eu não sou um musicólogo.

E como um músico, o que você pensa disso?
Eu não faço a análise desse gênero. A música deve falar dela mesma.

Normalmente você só publica gravações ao vivo de concertos...
Eu prefiro. Com o tempo, me dou conta que o público é importante para que eu dê o melhor de mim mesmo. Senão eu tenho a tendência a restringir minhas emoções

Quais são seus projetos?
Eu acabei de gravar os dois concertos de Brahms com a Orquestra de Boston e James Levine. Ao vivo, claro. E eu também tenho guardado todas as gravações de meus recitais. Um dia eu farei alguma coisa, mas tudo depende das personalidades. Eu não posso imaginar tocar Schumann sem ser em público. Mas existem também ótimas gravações feitas em estúdio como Annie Fischer na Fantasie op.17 e Martha Argerich na Kreisleriana.

Qual novo repertório você gostaria de se apresentar em público
Bach, sem dúvida, mas eu ainda não estou pronto. De Prokofiev, a integral das sonatas e os concertos n.4 e n.5. Shostakovich, sem dúvida. De uma maneira em geral, eu raramente gosto dos meus discos antigos, com exceção dos concertos de Rachmaninoff, por exemplo.

O n.2 com Gergiev? Foi um de suas primeiras gravações
Sim. Você quer que falemos dele?

Eu ia te pedir!
(Longo silêncio) Gergiev tem quase 20 anos a mais que eu, é uma espécie de irmão mais velho. Nós tocamos várias vezes juntos na URSS e em outros locais. Nós pegávamos o avião lado a lado para ir aos concertos. Lá, nós discutíamos sobre música. Eu acho que Gergiev era estava ainda mais impressionado com minhas partituras. Na minha infância eu escrevi muito. Obras originais e cadências para os concertos de Mozart. Eu adorava também improvisar quando tinha 7 e 8 anos...Um pouco mais tarde, eu tentei fazer diferentes estilos, outros instrumentos: uma verdadeira bulimia. Certo dia, depois de todas essas experiências eu me perguntei: "Mas o que fazer depois?" Eu hesitava entre a composição e a carreira solista. Tudo tomou seu rumo quando eu tinha 14 anos e minha carreira levantou vôo. Engraçado a coincidência! Logo em seguida eu estava quase todo o tempo em tournée e não tive mais tempo de refletir...então a composição terminou. Tudo aconteceu muito naturalmente. Eu estava extremamente lisonjeado que Gergiev se interessava por minhas obras e me pedia regularmente para tocá-las. Eu me lembro também das noites que passei com ele em meu quarto do hotel no Japão, onde nós tocávamos juntos o piano (ele é um bom pianista) tudo o que vinha na nossa cabeça. Era nossa solução para lutar contra o fuso horário! Nós compartilhamos também grandes "choques estéticos".

Quais?
Em Hamburgo, escutamos o grande maestro alemão Günter Wand reger a 8ªSinfonia de Bruckner. Era uma grande novidade para nós, esse compositor era ainda muito pouco tocado naquela época na URSS. Eu estava praticamente surpreso pelo entusiasmo de Gergiev. Depois disso ele começou a estudar Bruckner como um louco. Ele venera, desde então, o maestro Günter Wand. Eu o entendo, mas minha reação foi...como posso explicar? Estranha. Eu tinha uma idade ingrata. Essa experiência, muito forte emocionalmente, acentuou meu mal estar. Foi um período penoso, onde eu não conseguia exprimir meus problemas. Eu guardava tudo no interior - uma verdadeira panela prestes a explodir. Bruckner foi como um catalisador.

Quando foi isso?
Em Junho de 1987.

Quais eram os músicos que você admirava nessa época?
Tinham tantos "gigantes" na URSS! Svetlanov, por exemplo, um dos maiores regentes do Séc.XX. Eu aprendi muito o escutando, ele contribuiu bastante para formar minhas concepções. Mravinski? Eu só o escutei pela radio e televisão. Eu não estava o suficiente maduro naquela época para apreciar como eu deveria. E tinham grandes pianistas também.

Sviatoslav Richter?
Sim, era o primeiro entre eles. Sempre me perguntam qual é o meu pianista favorito; Eu não tenho um pianista favorito, eu tenho vários pianistas favoritos! Entre as lendas russas, o que eu conheci melhor foi Richter. Eu me lembro de um "Winterreise" onde ele acompanhava Peter Schreier...foi transcendente. Eu fico estupefato pela variedade do seu repertório: ele podia tocar tudo e sempre bem, em um estilo perfeito.

Quando você o encontrou?
Em 1985 (Eu tinha 14 anos), Richter me convidou para tocar Chopin no festival "Noites de Dezembro" em Moscou. Nós tínhamos conversado pouco naquele momento, mas a sua mulher me disse que ele havia gostado bastante da minha apresentação. Esse encorajamento foi importante para mim. Eu lamento de ser naquela época jovem demais para poder aproveitar a sua arte a seu devido valor. Hoje em dia, eu adoraria poder voltar no tempo e escutar novamente os grandes pianistas e chefes russos do passado.

Quem?
Emils Gilels! Era como Mravinski: Eu o vi na televisão e cada vez era uma verdadeira revelação. Sua maneira de tocar estava sempre muito próxima do meu coração. Lembro-me como se era ontem uma de suas interpretações dos estudos sinfônicos de Schumann: A sutileza da primeira variação, a construção implacável do final. E as cores...
Pude também ouvir os ensaios de Horowitz no seu "grande retorno" a Moscou em Setembro de 1986. Ele em seguida deu muitos concertos. Era uma oportunidade incrível para um jovem como eu.
Evidentemente também tem outros grandes pianistas que jamais tocavam na Russia: Michelangeli, Serkin ou Arrau. Em CD eu os escutava bastante, tanto quanto Rubistein ou Gould. Meu professor me dizia constantemente de sua vinda a Moscou em 1957. Ele ainda não era conhecido. Seu primeiro concerto estava quase vazio, mas graça as fofocas, todo o Moscou musical acabou vindo o escutar. Bernstein também deixou uma boa impressão quando o escutei. Baremboim, com a orquestra de paris foi muito interessante. Karajan, obviamente.


A respeito de Karajan, como você entrou em contato com ele?
No fim de sua vida, Karajan adorava sempre descobrir novos talentos. Para esses jovens, um compromisso com ele era uma prova importante para o início de carreira. Meu agente enviou ao maestro uma letra junto com os meus primeiros discos. Ele respondeu alguns dias mais tarde ele me convidou para ir tocar para ele em Salzbourg. Eu me lembro até a data: 9 de Agosto de 1988, uma terça-feira.

Uma terça feira?
Certamente: Eu conheço muito bem meu calendário, você não?
Foi impressionante. Eu toquei a Fantasia de Chopin. Algo estranho aconteceu. Como por um milagre, cara a cara com o grande maestro, eu toquei melhor que nunca. Depois teve um longo silêncio, eu não sabia mais o que fazer. Karajan tirou seus óculos de sol, que ele não havia tirado momento algum enquanto tocava, para limpar suas lágrimas.

E em seguida?
Algumas semanas mais tarde, eu recebi um convite para tocar o Concerto n.1 de Tchaikovsky no concerto de fim de ano com Karajan em Berlim. Esse foi um de seus últimos concertos. O maestro tinha os documentos que mostravam que o compositor achou os tempos do primeiro movimento apressado demais. Ele aproveitava dessa "prova" para reger mais lentamente: eu estava horrorizado, eu achava que era consequência de sua idade...ele me pedia durante os ensaios de tocar mais lentamente. Eu via bem que a orquestra sentia que alguma coisa no ar mas no concerto um milagre novamente ocorreu: eu toquei melhor que nunca, de maneira inconsciente. Karajan soube revelar um segredo em potencial enterrado profundamente em mim. Kurt Sanderling me confessou algum tempo depois: "É a primeira vez e sem dúvida a última que eu agüento esse concerto!" Ainda hoje, me falam sempre desse concerto...

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Espero que tenham gostado,

Abraço a todos,

John Blanch
(Twitter / Formspring / Site / Email)

5 comentários:

  1. Alexandre Maiorino8 de abril de 2010 11:20

    Eu tenho o vídeo desse concerto n1 de Tchaikovsky com o Karajan, o Kissin era uma criança ainda e foi realmente impressionante...:D

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  2. Ainda me impressiono com ele tocando, também criança, La Campanella, de Liszt/Paganini!

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  3. Foi você quem traduziu?

    - "Eu me lembro de um "Winterreise" onde ele acompanhava Peter Chreir...".

    Na verdade é o Peter Schreier.

    - "O subtítulo da primeira variação, a construção implacável do final".

    Não seria "sutileza"?

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  4. Sim....fui eu que traduzi...fiz o possível mas sempre podem ter escapado algumas besteiras no meio...obrigado! Realmente não sei como deixei passar essa!
    Abraço

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  5. Muito legal, John!!
    Sempre tive curiosidade de saber pelo menos um pouquinho mais da história do admirável Kissin!
    Obrigada,

    Silvia Molan

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