sexta-feira, 7 de maio de 2010

Nova Visão - Assim Falou Zaratustra - Strauss

 Sugestão de análise enviada pelo leitor Matheus Antônio da Silva e votada pelos leitores
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Also sprach Zarathustra, Op.30 (1896)
Richard Strauss (1864-1949)

Richard Strauss
Quem poderia imaginar que um simples tema de apenas três notas feitas pelo trompete poderia ser tão eterno, profundo e cheio de significado? Leonardo da Vinci sempre falou que a simplicidade é o último grau da sofisticação. Tolstoi dizia que não há grandeza quando não há simplicidade. O começo de “Assim Falou Zaratustra” é a prova disso...

O compositor e regente Richard Strauss viveu, ao longo de sua carreira, um dos períodos mais caóticos do mundo (politicamente, socialmente e culturalmente falando). Mesmo não sendo um anti-semita, o compositor chegou a se envolver indiretamente com o nazismo no momento em que ele aceitou o cargo para presidente da “Câmara musical de Reich”, mas em pouco tempo foi demitido por Goebels (ministro do povo e de propaganda nazista), pois deixou o nome do libretista judeu nos cartazes de divulgação de uma de suas óperas.

Na década de 1880, Strauss teve a oportunidade de conhecer, através dos Poemas Sinfônicos de Liszt, uma nova maneira de ligar a música com a literatura (música programática). O Poema Sinfônico tenta expressar musicalmente o que o poeta tentou expressar na literatura.

Apaixonado por esse estilo, Strauss passou os anos seguintes empenhado em compor músicas com base em obras literárias. Nesse período ele compôs obras como Don Quixote, Macbeth, Uma vida de herói, AusItalien , Don Juan, Morte e Transfiguração, As aventuras de Till Eulenspiegel e Assim Falou Zaratustra, que absorvem a estrutura de Liszt com a sonoridade de Wagner e as quais ele nomeou “Poemas Tonais”. 

Assim Falou Zaratustra de Nietzsche é uma grande obra filosófica que condena a moralidade do cristianismo e a realidade da sociedade anunciando o supra-homem, que é considerado alguém superior, capaz de colocar-se acima dos outros e criar seus próprios valores. A história se trata de Zaratustra, um sábio que aos 30 anos resolveu se isolar durante quase 10 anos nas montanhas até que em uma manha ensolarada ele resolveu sair de casa para compartilhar a sua sabedoria com a humanidade.

Essa obra de Nietzsche foi homenageada por vários outros compositores  como, por exemplo, Gustav Mahler (Existe parte do texto de Zaratustra na sua sinfonia nº3) e Frederick Delius (Missa da Vida). A figura de Zaratustra também chegou a ser utilizado por Jean-Philippe Rameau (diversas óperas).


Assim Falou Zaratustra de Strauss é uma homenagem à obra de Nietzsche formada por apenas um grande movimento ininterrupto, porém dividido em nove pequenas sessões, cada uma delas com o nome de um capítulo do livro de Nietzsche. Apesar da sua genialidade, a obra de Strauss foi moralmente questionada devido ao tema escolhido (já que as idéias do Supra-homem de Nietzsche serviram como base para a filosofia nazista).

“[...] Não pretendi escrever uma música filosófica ou  transformar o trabalho de Nietzsche em música. Eu quis sim transmitir na música uma idéia de evolução da raça humana desde a sua origem, através de várias fases de desenvolvimento, tanto religioso quanto cientifico, com a idéia do Supra-homem de Nietzsche. [...] De longe a mais importante  de todas as minhas peças, a mais perfeita em forma, em riquezas do conteúdo e mais individual no caráter.”(Richard Strauss)

O que Strauss quis dizer, é que essa obra não é uma representação exata das palavras de Nietzsche, mas sim uma representação das distintas emoções que as palavras de Zaratustra proporcionaram ao compositor.

Ao longo da obra, vamos perceber um conflito constante entre duas tonalidades: A tonalidade de (representação do universo) e a tonalidade de Si (Representação a humanidade).
 O mais incrível é ver que essas duas notas, apesar de estarem tão próximas uma da outra, são completamente distantes quando se trata da harmonia. (Podemos fazer também a mesma analogia com o humano e o universo)

“Eu quis mostrar que essas duas tonalidades (Dó e Si) simplesmente não podem ser forçadas a ficarem juntas, a peça inteira mostra todos os tipos de tentativas, mas isso simplesmente não funciona. Essa é a pura verdade!" (Richard Strauss)

1- O Amanhecer

Nessa introdução, a humanidade sente o poder de uma força superior. Como já disse acima, a tonalidade de Dó é a representação do Universo e da Natureza.

(00:05)A música começa com um grave pedal da nota Dó, feito pelo órgão, contrabaixos e reforçado pelo Bombo.

Tema do Universo
(00:21)Em um ambiente misterioso, os trompetes fazem um tema triunfal de apenas três notas ascendentes (Dó-Sol-Dó) “Tema do Universo”.  Como esses intervalos são o começo da série harmônica de qualquer nota (e a seguinte seria uma terça maior), nossos ouvidos acreditam que estamos em Dó maior.

(00:29)O tutti orquestral nos surpreende com sua magnificência e responde com uma fanfarra que transforma o acorde de Dó maior em Dó menor, seguido de um estrondoso ataque do tímpano. (00:34)

O universo é capaz de tudo, ele tem a força, a sabedoria e a superioridade em relação ao humano. Ouvindo isso tenho a sensação de ser minúsculo diante do mundo.

Tudo se repete novamente até que na terceira e última retomada do tema (00:55) vamos para a subdominante (01:05) e terminamos em um imponente acorde de Dó maior(01:26), concluindo o primeiro e glorioso discurso de Zaratustra.

2- Dos crentes em além mundo

No livro de Nietzsche, Zaratustra nega a existência de deus e mostra o homem no seu estado mais primitivo. 

"O mundo parece para mim uma obra de um Deus sofrido e torturado! Esse Deus foi obra do homem, da loucura do homem, assim como todos os deuses" (Zaratustra)

Strauss, que originalmente nomeou essa sessão de "O divino" também não acreditava em Deus, mas quis demonstrar na música, os religiosos e a sua  busca constante pelo significado da vida. Sendo sarcasmo ou não do compositor, essa sessão possui um dos temas mais bonitos e sofridos de todo o poema sinfônico.

Tema do Medo
 (00:00)A sessão começa com tremollo dos cellos seguido de um anúncio misterioso do clarinete e dos sopros. Quando escuto esse tema "obscuro", vem em minha mente a imagem do supra-homem, superior, sem Deus, sem coração...(Vamos chamá-lo de "Tema do Medo").

(00:32) Pizzicato dos cellos e contrabaixos fazem uma passagem ascendente que introduz o canto sagrado "credo in unum deum" ("Creio em deus" em latim) (00:40) feito pelas trompas, obviamente citando o cristianismo.

Tema da Fé
O Supra-homem é contraposto com uma melodia muito bonita para cordas em divisi, que representa a beleza da religião. (00:53) Esse é o momento de reflexão da obra. É difícil não se arrepiar com cada dissonância e cada resolução harmônica. Essa nova melodia é o "Tema da Fé"

A melodia parece ser eterna..acordes vão se desdobrando de uma maneira hipnotizante...ela parece não pertencer exatamente a nenhuma tonalidade..ela é unipotente...ela passeia por diversas tonalidades. Diferentes linhas melódicas vão nascendo e se juntando com as mais antigas. (1:24) O discurso dos anjos? Um monólogo dos deuses? A melodia se torna mais intensa e no seu auge (02:20) as cordas da orquestra chegam a estar divididas em 14 partes diferentes! É um coro sagrado e puro que quase me emociona quando abaixo a minha cabeça para ouvi-lo...

(02:49)A realidade começa a voltar e (03:28) uma passagem ascendente da viola serve como uma ponte entre essa e a próxima sessão. 

3- Do Grande Anelo

 Strauss faz com que a música progrida de tal maneira que ela passa a impressão de um conflito onde o homem tem o desejo crescente de libertar-se da religião, das superstições e da ignorância, mas ao mesmo tempo ele tem medo de sentir-se sozinho no mundo e possuir uma vida sem sentido. (No livro de Nietzsche, Zaratustra tem um longo discurso com a sua alma.)

Tema do desejo/sonho
(00:00)A sessão começa com um motivo que chamarei de "Tema do desejo/sonho" feito em Si menor com um caráter bastante sonhador. (00:22)Pela primeira vez na obra o universo começa a entrar em conflito com o humano e as cordas (em Si) são constantemente contrapostas pelo tema do universo (em Dó).

(00:35) O órgão faz a abertura do canto gregoriano Magnificat seguido pelo reprise do credo das trompas (00:42) para representar a religião. Ainda em um ambiente calmo (00:45), o tema da fé é feito pelas cordas mas é brutalmente interrompida pela realidade do universo(00:52).  A impressão que tenho é a de que o humano está dividido entre acreditar na religião ou dar ouvidos à "realidade universo" (de que o deus não existe)

Passagem densa dos Cellos e Contrabaixos
(01:07) A música começa a ficar mais intensa e os cellos e os contrabaixos aumentam a tensão com uma passagem densa. O humano tenta desesperadamente voltar a ter fé, mas parece que é tarde demais. Suas consciência fala mais alto. (01:19)Strauss recusa mover os temas para "qualquer" tonalidade e comeca a modular, criando uma tensão que cresce a cada compasso.
 
 Os diversos temas comecam a ser tocados ao mesmo tempo para mostrar esse conflito da consciencia do homem. Os trompetes anunciam a realidade com o tema do universo (01:50) enquanto o órgão e as cordas dão o seu último suspiro com o tema da fé, que é engolido pelo universo . Ele teve a última palavra e uma furiosa subida melódica nos leva à próxima sessão.

4- Das Alegrias e Paixões

No livro de Nietzsche, Zaratustra fala sobre suas paixões, que só lhe trouxeram desgosto e tristeza. Direcionando adequadamente esses males, eles podem tornar-se virtudes e conseqüentemente levar-nos à felicidade.

Tema da Paixão
(00:00) A sessão começa com o tema bastante melancólico e intenso feito pelas cordas em Do menor, ela representa as emoções do homem. (Vou chamá-lo de "Tema da Paixão"). O homem está claramente atormentado, perdido em seus pensamentos. Um monólogo do seu eu lírico interior.

Tema do Desgosto
(00:23) A música se desenvolve intensamente e os metais passam também a anunciar o tema da paixão.  
(01:36) O humano tenta conter suas emoções mas não consegue. (01:42)Um estranha avalanche de sensações começa a tomar conta do homem e (01:54) uma inevitável explosão sentimental acontece: os trombones anunciam magistralmente um novo motivo conhecido como "Tema do Desgosto". O humano já não tem mais forças nem esperança. Só lhe resta fazer uma coisa: lamentar.


PS: (É curioso perceber que a música fica entre as tonalidades de Si e Dó, porém um está em diminuto e o outro em aumentada. Estes dois acordes não resolvidos criam um efeito incrível e uma tensão que mexe com teu corpo. Isso foi usado bastante no fim da era romântica e abriu portas para uma nova era. Qual a relação entre Sí e Dó afinal? Com a sobreposição dos dois acordes, não somos capazes de decidir se esses trítonos fazem papel de Dominante ou de Subdominante...
Loucura?
Vamos lá:
 A dominante de SI é fa#, que é o trítono de Dó. No entanto, a subdominante de Dó é Fá, que é trítono de SI).

5- O Canto do Sepulcro
No livro de Nietzsche, Zaratustra reflete sobre sua vida e sobre o seu passado. Fechando os olhos, ele sente o perfume da juventude, alivia seu coração e começa a chorar.  "A juventude teve que morrer cedo e jovem demais! Todas as visões da mocidade desapareceram. Os inimigos assassinaram meus sonhos da juventude. Roubaram a pureza da juventude. Amargaram minha felicidade." Quando Zaratustra queria apenas dançar, com a maior inocência possível, os inimigos alcançaram o cantor e o fizeram tocar a mais fúnebre trompa. "Maldade! Tuas notas mataram meu êxtase. Mas ainda existe algo invulnerável em mim..a minha vontade!"

(00:00)A sessão começa com o tema da paixão feito pelo oboé junto com o tema do desejo/sonho em si menor em forma de lamento. (00:27) As dissonâncias de cada suspensão do violino são como a súplica e choro do homem.

A rica e densa polifonia dos diversos temas tocados simultaneamentes leva a música (em si) ao clímax (em do), (01:02) onde as três notas do tema do universo são anunciadas novamente pelos trompetes, criando um ambiente bastante abstrato, como se os raios de sol estivessem brilhando e iluminando o coração do homem através de uma pequena brecha entre densas nuvens da tristeza.

(01:30)O Conflito do homem continua e as nuvens vão cobrindo os últimos vestígios de esperança. A música acaba acalmando e voltando para Si menor. (02:17)

6- Da Ciência
No livro de Nietzsche, Zaratustra  fala em abandonar todos os acadêmicos que o deixaram insatisfeito. (00:00) Strauss inicia essa sessão com os cellos e baixos fazendo uma "fuga" bastante sombria, usando todas as 12 notas da escala cromática! Silenciosamente, ela se desenvolve entre caóticas dissonâncias que mostram que o raciocínio cientifico, muitas vezes, também leva ao desespero e confusão

A fuga, de certa maneira, é a maior representação da matemática no mundo da música e usando como o sujeito dessa fuga o "Tema do Universo" faz com que eu me pergunte algo:  seria essa a maneira de Strauss representar a ciência em busca das respostas do universo? (fuga=ciência= busca constante/ Tema do universo como tema da fuga em todas as notas da escala cromáticas = Respostas infinitas e perguntas eternas)

 (02:53) No seu ápice, a fuga é seguida pelo tema do desejo/sonho com um extremo bom humor.  (02:56)A melodia que vem a seguir me parece mostrar que a ciência encontrou respostas e está se gabando de suas conquistas. A alegria dura pouco e (03:34) o universo destrói sua felicidade com mais e mais perguntas. (03:44) O tema do desgosto é anunciado varias vezes pelos sopros e sempre seguido do tema do universo. (04:20) Zaratustra fica irritado e decide também negar a ciência.
 
7- O Convalescente

(00:00) A sessão começa com uma intensa reexposição da fuga. No livro, Zaratustra passa um momento de extremo desespero e a raiva e o desgosto vão tomando conta de sua alma. Ele envolve seu pensamento mais aterrador e chora. "Desgosto, desgosto, desgosto sou eu" (Zaratustra)

 Na música, essa sensação se desenvolve, cresce a cada compasso. Entre um tornado emoções e pensamentos profundos, (01:04) o mundo começa a girar na sua cabeça. Ele libera sua angústia com gritos de desespero: (01:19)uma...(01:21)duas...(01:23)três...(01:26)quatro vezes até que no ápice, (01:30) os sopros fazem o tema do desgosto e Zaratustra, atormentado, cai semi-morto no chão. (01:34) As três notas e o massivo acorde da natureza anunciam o que aconteceu mostrando a sua grandiosidade.

(01:49) Depois da pausa, inicia-se um lento e misterioso interlúdio usando o tema do desejo/sonho seguido do tema do desgosto feito pelos baixos e contra-fagote, representando o período em que Zaratustra fica deitado no chão de sua caverna quase morto (uma semana).

(02:49) No livro, os animais da floresta começam a se preocupar com Zaratustra. (03:10)Trilos dos sopros lembram sons de pássaros na natureza. Uma nova atmosfera calma e misteriosa surge: Os animais passaram a lhe trazer comida para que ele sobreviva. Zaratustra vai sobreviver? Todos ficam ansiosos. A orquestra flutua nas dinâmicas e cores dos sons. O humor muda e os instrumentos parecem tentar salvar Zaratustra da amargura. De repente, algo acontece. (04:42)Sinos tocam. Zaratustra se levanta?

 Quase morto (machucado) pelas dúvidas do universo, ele é salvo pela natureza. Existe algo mais irônico que isso?

8- O Canto da Dança

 No livro de Nietzsche, Zaratustra chega na floresta e encontra algumas jovens dançando e se divertindo. No momento que ele chega, elas param. Ele faz um pequeno discurso implorando para elas dancem e cantem uma música que ele gosta e em seguida a dança continua.

Tema da Dança
Na música isso pode ser claramente visto (00:00) através dos trilos dos sopros juntos ao tema da natureza evocando o ambiente de uma floresta e (00:35)com o solo de violino junto ao oboé, que representa uma dança (devido a valsa de estilo vienense, típico de Strauss). O tema feito pelo solo do violino, chamarei de "Tema da dança".
PS: Reparem também que essa sessão lembra bastante a suíte da ópera “O Cavaleiro da Rosa“

(01:16)A música que estava em dó maior modula para lá menor. Zaratustra estaria implorando para que as jovens não parem de dançar? Após o discurso de Zaratustra feito pelo solo do violino, O tutti orquestral mostra que a dança é retomada e todos se divertem dançando.(02:29)
Continuação do Tema da Dança
(03:48)Como a felicidade sempre dura pouco na vida Zaratustra, o tema do desgosto começa a ser citado diversas vezes enquanto a música se acalma a cada compasso.  O tema da dança feito pelo solo do violino é continuamente citado, porém, dessa vez, sempre interrompido pelo tema do desgosto, tema do sonho.

A dança vai terminando aos poucos. (04:21)Reparem que o trompa faz um tema que e uma variação do tema da paixão, que é interrompido pelo tema do desgosto seguido de um novo tema. (04:42) Esse novo motivo cromático entra em cena, e a meu ver ele representa a solidão de Zaratustra. A dança acabou e ele esta sozinho.

No livro, ele olha nos olhos da própria Vida e começa a dançar com ela. A música fica mais intensa e sempre o tema do sonho retorna.(06:16). A vida está com ciúmes da sabedoria de Zaratustra e ele dança com ela com medo e amor. (06:45) Após o clímax com o "tema da dança" feito pelo tutti orquestral acompanhado do "tema do sonho" em segundo plano, a música fica mais calma, até que aos poucos o ambiente volta a tornar-se denso (graças ao uso de boa parte dos temas de todo o poema tonal). A sessão termina voltando para dó maior, a tonalidade do universo. (08:09)

9- O Canto da Noite (Título no livro: O canto da embriaguez)
(00:00)A sessão começa com doze campanadas do sino da meia noite. Eu acredito que além de significar o fim e o começo de um dia, isso significa o fim e o começo de uma vida, nesse caso, a vida de Zaratustra. Essa tensão do inicio pode ser interpretada tanto como uma representação da morte, quanto o da eternidade. Quem sabe até mesmo os dois ao mesmo tempo.

A Vida sente que Zaratustra vai abandoná-la logo. Entre as campanadas e o tema do desgosto,
Zaratustra sussurra algo no ouvido da Vida que a deixa maravilhada de sua sabedoria e em seguida (02:00) os dois choram. Lágrimas escorrem pelo rosto da Vida e de Zaratustra. O seu papel no mundo acabou. Chegou a sua hora. Um ambiente mágico, puro e abstrato toma conta do momento, com acordes que te fazem arrepiar. A vida está se despedindo, mas ao mesmo tempo, a eternidade está chegando.

"[...]O mundo é profundo [...]
[...]Mais profundo que o dia [...]

[...]Profundidade é a sua dor [...]
[...]Alegria é mais profundo que a agonia do coração [...]
[...]A dor diz: Passa! Vai-te, dor! [...]
[...]Porque toda a alegria quer eternidade [...]
[...]Que profunda eternidade... '
(Trecho do livro de Nietzsche)

(04:06) O violino e sopros em notas agudíssimas fazem o acorde da humanidade (Si) e em seguida (04:12) os contrabaixos justapõem com o acorde do universo (Dó). Isso se repete várias vezes e a batalha termina quando Zaratustra dá o seu último suspiro de vida (04:41)e os baixos fazem o pizzicato em Dó. (04:46)

O homem nasceu da terra e no fim ele vai eventualmente voltar para a terra. O universo sempre tem a última palavra. É incrível ver como duas notas são tão próximas uma da outra e ao mesmo tempo conseguem ser tão distantes harmonicamente falando. O homem e o universo funcionam da mesma maneira.

 Strauss deixa, com esse final, a impressão que a serenidade e tranqüilidade é algo alcançável e o homem e a natureza parecem chegar a um acordo de paz. Apesar do universo ter a última palavra sobre o humano, nenhum dos dois acordes podem ser considerados como um verdadeira tônica da música.


Brahms criticou o final dizendo que não acontecia nada nos últimos compassos... mas na verdade...o nada...é exatamente o tudo... (O branco, por exemplo, é na verdade, a união de todas as cores do espectro.)

Em uma nota de rodapé nos últimos compassos, Strauss escreveu um conjunto de pontos interrogação. Talvez ele estivesse pretendendo mostrar os mistérios eternos da vida e da morte. Sem dúvida as grandes questões da vida devem continuar sem repostas. 


Abraço a todos,

John Blanch

(Twitter / Formspring / Site / Email)

  -Áudio - Karajan - (Deutsche Grammophon - 1993)
-Partitura de Strauss em PDF - Clique aqui 
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Só para lembrar: cada mês abro um espaço para que o leitor envie suas sugestões de análise para o email: "contato.johnblanch@gmail.com "
De todos os emails que recebo seleciono as 10 melhores obras e abro uma votação no blog. Os leitores votam e eu analiso a obra mais votada. Envie sua sugestão para esse mês!

25 comentários:

  1. Muito bom!!! Valeu a pena esperar.

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  2. Absolutamente fantástica sua análise!
    Muito obrigado e um abraço! Domingos D´Arsie

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  3. Nossa...Ficou muito bom o seu trabalho!
    Graças ao seu esforço, eu agora compreendo muito melhor as nuances desta obra.
    Muito obrigado por postar algo tão bem elaborado!

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  4. Incrível seu Trabalho ....sem comentários

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  5. John Blanch
    Mesmo diante do meu frugal conhecimento de música, confesso que realmente me emocionei com a elegância do texto e a procedência do admirável talento.
    Só tenho a dizer: Bravo!

    Bravíssimo!!! Ana Antônia

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  6. Uau!!!

    Mutio bom mesmo, a música em si é incrívelmente estonteante, eu sempre fico abismado como ele consegue mastrar tantos, pensamentos, tantas sensações em um curto espaço de tempo. Tenho certeza que muita gente vai ouvir com outros ouvidos a música programática de Strauss (espero), ótimo trabalho senhor Blanch...

    Matheus Antônio da Silva

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  7. Meus sinceros e enfáticos PARABÉNS!

    Sua atitude e a sua intesa atividade para realizar este tipo de trabalho motiva-me a continuar acreditando na Vida.

    Descobri hoje este seu trabalho e passarei a acompanhá-lo mensalmente ... e na medida do possível irei ver o passado.

    Votos de felicidades, força, sabedoria e amor!

    Fraterno abraço.

    Roberto.

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  8. Sempre apreciei essa obra sem nunca saber seu significado... Esse seu trabalho é espetacular!

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  9. BRAVO! GRANDE MESTRE!!!!!!!!!! SENSIBILIDADE NOTAVÉL, A BELLA MUSICA PULSA EM SEU SER!!!!!! JAMAIS OUVIREI DA MESMA FORMA ESSA OBRA DE Strauss

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  10. Magnificíssima análise! Poucos a teriam feito melhor! Muito obrigado por publicar sua análise de cada nuance segundo sua visão!!!

    Só pra comentar sobre a obra em si:

    O "nada" de que se trata no final... Não seria ele o destino da humanidade, a extinção, enquanto que a vida de zaratustra descreve os muitos anos de existência da humanidade?
    Acredito nisso, pois a natureza, conforme se vê na parte 7, dará uma última chance aos humanos antes de nos redimirmos, como espécie, perante a grandiosidade da natureza.
    E o humano, negligente, ignora, e seus traços, por se tratarem de armas nucleares, serão visto por toda a eternidade, como a causa da morte. Portanto a parte 9 pode ser interpretada como SIMULTANEAMENTE a vida e a morte de zaratustra, vulgo o ser humano.
    Os humanos terminarão de desempenhar seu papel, que é transmitir sabedoria. Isso a vida reconhecerá, como se vê pouco depois, ainda na parte 9.

    A pergunta que pra mim permaneceu em aberto é: qual é o conhecimento que o humano adquirirá(ou) ao longo de sua existência e que será(foi) reconhecida pela eternidade?

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  11. Nossa, obrigada por trazer um pouco de cultura aos indoutos como eu, bravissimo!!
    Acabei de ler o livro em questão e ganhou um sentido especial depois que eu li estas considerações junto a obra de Strauss
    Parabéns!

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  12. Orkut ex machina30 de maio de 2010 07:54

    John, magnífico. Só gostaria de acrescentar como o filme 2001: Uma Odisséia no Espaço contribuiu para a divulgação desta obra e como ambas se complementam em suas temáticas!! É um casamento perfeito!

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  13. esta obra emociona-me sempre que a escuto,porem não tinha menor ideia desta ligação literaria. Em minha imaginação, haviam cenas bem diferentes para estes sons.

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  14. Caramba! Adorei! Eu desconhecia isso... obrigada porcompartilhar! ^-^

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  15. Se viajei muito com o filme no passado,hoje pude admirar ainda mais essa obra, tendo o por decodificador de grandes recursos.
    Abraço e sucesso sempre.
    Wilson

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  16. Olá, John.

    Sou "aprendiz de cineasta", por assim dizer, e pretendo usar Assim Falou Zaratustra no meu novo curta, em fase de montagem. É uma referência a 2001 e também muito importante simbolicamente no curta em si, que fala de renovação. Porém preciso de uma gravação que tenha mais de 50 anos, por causa de direitos autorais, ou qualquer outra em creative commons.
    Conheceria alguma para me indicar? Saberia onde posso encontrar?

    Parabéns pelo blog. De música, entendo quase na além do sentimento (que não se entende), e a das palavras. Mas ví que você entende um bocado.

    Abraço.

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  17. Cara, parabéns por esse seu trabalho aqui no blog. Esse artigo sobre o poema sinfônico de Strauss ajudou muito minha monografia! Obrigado e força sempre pra continuar nessa estrada sempre! Abraço

    Alysson Siqueira

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  18. Esse blog é demais!! ^^

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  19. Não consigo ouvir as músicas! Alguém sabe o porquê?

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  20. Sua análise musical da obra de Strauss tem muita acuidade e vc explora bem os temas. No entanto, no que se refere à filosofia de Nietzsche, há uma série de escorregões: não acredito q Strauss tenha feito a leitura da obra de Nietzsche simplesmente como uma Ode ateísta, sendo q o principal problema da obra é a superação de Deus e do Homem e o advento do Super-Homem. Mas parabéns pela análise, muito útil.

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  21. Quero agradecer este compartilhamento, didaticamente acessível a todas as pessoas com um pouco de, no mínimo, curiosidade musical... Gostaria de apreciar desta forma muitas outras obras maravilhosas

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  22. Pena q os links estão fora do ar, tem como subir novamente, ou troca-los? Sem o áudio o seu belo trabalho perde a força.

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  23. Pena q os links estão fora do ar, tem como subir novamente, ou troca-los? Sem o áudio o seu belo trabalho perde a força.

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